• Wednesday , 22 November 2017

Doenças psiquiátricas: quando elas começam?

*Por Tânia Maria da Silva Novaretti

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Olhe para você e relembre: seus pais olhavam para você, quando estava triste? Percebiam sua angústia? Perguntavam o que acontecia? Você se sentia à vontade para discutir seus sentimentos e emoções?

Se você respondeu sim, é um sortudo!

A criança, como a vemos hoje, só passou a existir na Idade Moderna. Antes as crianças eram “contadas” apenas quando começavam a participar do mundo adulto e eram exigidas como adultos pequenos; eram propriedade de seus pais, podendo ser comercializadas espancadas e mortas por eles.

Com a expansão do conhecimento, a evolução da presença social da criança, desde a gravidez à vida adulta tomou vida própria e este período passou a ser considerado único e crucial para o adulto do futuro.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, as doenças mentais são doenças crônicas da infância e adolescência. Na maioria das vezes, quando o adulto procura o médico, psiquiatra ou não, com queixas de tristeza, ansiedade, medo e, mesmo quando é levado para um serviço de urgência devido à tentativa de suicídio, surto psicótico, entre outros, uma avaliação mais apurada vai mostrar que já na infância e adolescência havia sinais de algum transtorno que foram banalizados ou mal diagnosticados. Muitos desses adultos que buscam ajudam tardia dizem que já eram tristes desde a infância e ninguém notou.

Este olhar é muito novo porque os sintomas na infância e adolescência não são os mesmos dos adultos. O cérebro das crianças é imaturo e, não necessariamente, a presença de sintomas preocupantes na infância e adolescência irá certificar um quadro grave na vida adulta. Isto faz com que pais, professores e médicos tenham muito medo de rotular negativamente a criança ou marcá-la de forma a impedir sua reabilitação. Esta preocupação realmente é válida, mas, não tratar a criança e o adolescente pode impedir sua cura, levando à cronificação do quadro psiquiátrico na vida adulta e a formação de uma personalidade frágil e insegura.

Fatores que influenciam no desenvolvimento da criança

Existem três pilares que estruturam (e desestruturam) a saúde mental do indivíduo:
– sua saúde desde a gestação (genética, presença de infecções virais e bacterianas da gestação até a vida adulta, condições de nutrição e vícios da mãe, condições de parto e nascimento);
– sua criação,
– e os acontecimentos de sua vida (boas e más relações com colegas, perdas significativas, mudanças, situações de estresse e agressões).

Esquizofrenia, Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), Transtorno Bipolar e Autismo estão relacionados à genética e a infecções pré e pós-natal por gripe, rubéola, Toxoplasma gondii (com ou sem toxoplasmose clínica) e herpes.

O ideal seria que antes de engravidar as mulheres procurassem saber se têm ou tiveram estas doenças, tratarem e receberem as vacinas. Nos países em que o inverno é muito severo, as doenças psiquiátricas são mais frequentes entre os nascidos neste período.

A gravidez é um período crucial para a sanidade mental da criança. Transtorno de Déficit de Atenção, Ansiedade, Insônia, Transtornos de Aprendizagem estão relacionados ao uso de álcool, drogas, tabaco e alguns medicamentos, hipertensão arterial, doenças maternas, infecciosas, metabólicas (diabete, hipo ou hipertireoidismo), psiquiátricas, neurológicas, câncer.

Ao nascimento, os riscos são partos muito prolongados, com sofrimento fetal, prematuridade, infecções do recém-nascido.

A genética deve sempre ser lembrada. Assim como o risco de diabete é maior em famílias diabéticas, o risco de ansiedade, depressão é maior em famílias com muitos diagnósticos de ansiedade e depressão.

Olhar atento dos pais

Os recém-nascidos que choram muito, não conciliam o sono, não se aconchegam aos adultos, parecem preferir a solidão à companhia devem já ter uma atenção especial.

A evolução da criança tem que ser observada cuidadosamente: riso social, rolar, sentar, gatinhar, falar. Neste momento, o melhor é pecar pelo excesso: a criança não emite sons, é melhor avaliar a audição; a criança não se move, melhor ver o neurologista (pode ser uma doença muscular). Andar e falar: o esperado é um ano de idade (mais que um ano e três meses procure o neurologista).

Na primeira infância, além da evolução, é importante observar a socialização da criança, sua capacidade de interagir com o meio ambiente, a aquisição da linguagem e movimentos diferentes (estereotipados) como mover as mãos, girar o corpo, repetir as mesmas coisas o tempo todo, ficar muito nervoso com mudanças no ambiente e na rotina, comer apenas as mesmas coisas, crises de birra e dificuldade de dormir.

Agitação, (in)capacidade de dividir brinquedos, os medos (de dormir, ficar sozinha, comer, ir à escola), rituais absurdos (chorar quando os dois lacinhos do cadarço do tênis não ficam iguais, ou usar apenas uma roupa), intolerância ao que a desagrada, crueldades a outras crianças e animais devem ser observados com preocupação.

No início da vida escolar, a desatenção, a hiperatividade, a dificuldade de aprendizagem devem ser vistos como indicação da necessidade de avaliação médica e não como crítica ao comportamento da criança.

Neste momento, o carinho dos professores é essencial. Crianças fóbicas podem ser obrigadas a ler ou falar em público e isto pode marcar sua história indelevelmente. As crianças pré-escolares costumam ser muito “aparecidas”, gostam de se expor e ganhar elogios. Caso isto não ocorra, pode haver sinal de problemas de aprendizagem ou ansiedade.

Na adolescência é normal que o jovem se afaste de seus pais e busquem amigos da mesma idade, mas, alterações súbitas de humor, agressividade, insônia, sonolência diurna, piora na escola, crises de raiva, isolamento, podem ser sinais de alerta para o uso de álcool e drogas, Transtorno Bipolar e Transtornos de Personalidade.

Os pais não são capazes de prever e evitar os transtornos mentais. São apenas seres humanos que também sofreram nas suas infâncias e juventudes, mas podem ter uma visão menos preconceituosa da doença mental. Levar o filho ao psiquiatra não significa aprisiona-lo a um diagnóstico e ao uso de remédios. Significa sim, dar a eles a oportunidade de tratar doenças antes que elas se cronifiquem e permitir que possam ser adultos mais completos, realizados e felizes.

Não necessariamente o tratamento será medicamentoso e nunca será apenas medicamentoso. A psicologia, fonoaudiologia, fisioterapia, nutrição, psicopedagogia são aliados importantes da medicina.

Já estamos vendo as crianças e adolescentes, vamos começar a enxergá-los?

*Tânia Maria da Silva Novaretti – Médica graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (1982). Residência em Neurologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (1983-1984). Mestre em Ciências, área de concentração Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (2001). Doutora em Ciências, área de concentração Neurologia pela Faculdade de Medicina da USP – SP. Possui Título de Especialista em Neurologia pela Academia Brasileira de Neurologia e AMB, Psiquiatria e Psiquiatria da Infância e Adolescência pela Associação Brasileira de Psiquiatria e AMB, atuando principalmente nos seguintes temas: neurologia, neurologia infantil, psiquiatria, neuropsiquiatria, neuropsicofarmacologia.

 

Um Commentário

  1. Ana Lucia Rassier
    25 de June de 2014 at 22:42 - Reply

    Ouvir verdadeiramente o que uma criança tem a dizer e prestar muita atenção em suas atitudes são a melhor maneira de dizer aos nossos filhos o quanto nós os amamos!

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